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Bem Vindo ao Nortão Notícias, 23 de Outubro de 2017
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05/06/2017
Educação x Ostentação
- O comédia tá doido pra perder o celular.
- Quer aparecer!
- Já já vem um doído e acaba com a onda dele.

Ouvi essa conversa quando chegava à escola pra buscar meu filho. Partia de dois meninos criticando a atitude de um colega que simplesmente falava ao celular na calçada às vistas de qualquer um. Ele usava um desses aparelhos modernos que parecem pé de fruta e já vem com uma maçã! Não parecia ter qualquer pretensão de usurpar olhares, mas já havia virado motivo de chacota. Talvez porque o sonho de consumo de seus críticos seja possuir um brinquedinho igual, que além facilitar a comunicação funciona praticamente como minicomputador.
A situação anda tão feia que ninguém mais pode usar seus objetos sem medo, pensei; achando que era essa também a preocupação dos meninos. Mas, logo percebi que estava errado quando cheguei mais perto e pude ouvir o fundo musical da conversa. Em seus aparelhos menos vistosos, mas também potentes, os manos se deliciavam ao som dos novos pensadores brasileiros:

“Olhei pro espelho e preparei um plano
Cordão de ouro pesado
Rolex tenho sobrando
No meu guarda-roupa uma coleção de kit's
Só estampa de marca parece uma loja de griff
Entrei na minha garagem puro conforto das naves
Bmw-X6 e uma linda Maserati
Mais que bela visão do Ap do Guarujá
A vida agora é Vip com a lancha de 3 andar”

Meu Deus, que porcaria, sussurrei tentando entender o que se passa na cabeça dos jovens de hoje. E, enquanto esperava meu filho dar as caras consegui prestar atenção ao refrão de outra maravilha que, ainda por cima, tinha a pretensão de soar como poesia:

“Sonhar, nunca desistir
Ter fé, pois fácil não é, nem vai ser
Tentar até se esgotar suas forças
Se hoje eu tenho eu quero dividir
Ostentar pra esperança levar e o mundo sorrir”

Caramba, devo estar velho! Na minha época “levar esperança” não tinha nada a ver com ostentação. Acompanhar a trajetória de um menino pobre que consegue superar as adversidades e se formar na universidade, muitas vezes como o primeiro graduado de sua família, isso sim nos fazia acreditar em dias melhores.
O fato é que as coisas mudaram. Os jovens mudaram. As famílias mudaram e os valores foram deixados de lado. Minha avó, professora por mais de trinta anos, costumava dizer que a tarefa da escola é alfabetizar a criança e estimular o jovem através de atividades pedagógicas e do raciocínio lógico. Assim, eles adquirem conhecimento pra que quando adulto estejam preparados a decidir o que fazer da vida. Mas, mais importante que isso, cabe à família educar seus filhos através de exemplos e da vigilância.

Uma criança criada numa casa onde há diálogo e estímulo à leitura, onde se ouve boa música, se vê bons filmes e programas de qualidade, onde se discute política, comportamento e relacionamento social, onde se fala de tudo, absolutamente tudo, mas onde os pais também impõe regras e limites, terá maiores chances de se tornar um jovem crítico e de bom convívio social. Certamente, este indivíduo não fará da ostentação uma filosofia como querem os MCs por eles idolatrados hoje.

É preciso trazer discussões como sexo e sexualidade, drogas, dinheiro, desemprego, violência, educação, respeito ao próximo, amor próprio, religião, importância dos estudos e do trabalho pra roda de conversa com os filhos. Conceitos de segurança pública e responsabilidade social também. Estamos forjando cidadãos e não esculpindo estátuas.

Lares desajustados onde não há qualquer tipo regra e o crescimento das crianças corre a gosto do freguês inibem o senso crítico e permitem amizades perigosas e escolhas equivocadas. Infelizmente, muitas famílias estão deixando para as escolas e pro mundo à educação de seus filhos. E nesta inversão de papéis produzindo meninos e meninas mais atentos à ostentação que preocupados com a sociedade em que vivem.

Em outros tempos, penso que ao invés de criticarem o colega que ostentava um celular caro no meio da rua aqueles meninos, da escola do meu filho, teriam aconselhado o rapaz a usar seu telefone apenas em ambientes seguros, como o pátio do colégio para autoproteção. Mas, como estou ficando velho, talvez esteja enganado. Será?
Por: Robson Fraga
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