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06/07/2020
Páginas em Branco
Em Memorial de Aires vem a advertência: "Papel, amigo papel, não recolhas tudo o que escrever esta pena vadia (...). Não, papel. Quando sentires que insisto nessa nota, esquiva-te da minha mesa e foge. A janela aberta te mostrará um pouco de telhado, entre a rua e o céu, e ali ou acolá acharás descanso. Comigo, o mais que podes achar é esquecimento, que é muito, mas não é tudo."

A vida é mistério. Um amigo me disse ontem: papel nenhum no mundo resolve... falávamos sobre o "viver". No papel em branco cabe o mundo, mas o mundo não sabe disso.

Sobretudo os documentos, os papéis de hoje, que trazem o vazio, as páginas descoradas. Todas as palavras são ditas, todos os Poderes decretam, publicam, sentenciam seus atos. Os órgãos proclamam seus documentos formais, deliberam todos os seus papéis monótonos. E muito ainda não existe, muito ainda é "em branco", é silêncio. São como cartas sem conteúdo, sem um quê que preencha ou faça memorar.

Será por que o que se escreve procura um monólogo e um diálogo consigo mesmo?! Será que somos como alguém que, como disse Kant, conhece das coisas o que a gente mesmo põe nelas?!

Ferdinand Lassalle chamava a Constituição Federal de uma simples "folha de papel". Dizia: "Onde a Constituição escrita não corresponder à real, irrompe inevitavelmente um conflito que é impossível evitar e no qual, mais dia menos dia, a Constituição escrita, a folha de papel, sucumbirá necessariamente perante a Constituição real, a das verdadeiras forças vitais do país."

Sob a supervisão de Eleanor foi acordado um conjunto de direitos humanos; depois de um longo caminho, foi publicada a Declaração Universal dos Direitos Humanos. E todos viveram felizes para sempre! Exceto pelas mais de 800 milhões pessoas em todo o mundo que não têm acesso suficiente à alimentação, pelas pessoas presas por apenas expressar seu pensamento, pelas milhares que não têm acesso à educação e à saúde, ao esgotamento sanitário, as que vivem escravizadas, esquecidas em silêncio....

Ainda são palavras em uma página. Ainda são "cidadãos de papel". Páginas e mais páginas de papel em branco, com espaço preenchível sem nada escrito, pálido, amarelado e cadavérico.

Entretanto, são as pessoas reais que vivem e lutam a vida (que dói sempre) com coragem. Nas cidades, nas periferias, ruas e guetos, nos postos de saúde, escolas... é aí que se escrevem as páginas do livro da vida, estas sim, feitas de sangue, suor e lágrimas.

Ora, quem vai fazer essas folhas de papéis realidade, quem vai escrever no papel em branco e preencher o oco? Somos nós: as pessoas, as gentes, as crianças, as mães, pais e filhos.

Eleanor Roosevelt disse: "Afinal, onde começam os Direitos Universais? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior."

Num filme de fantasia épica e aventura eu ouvi isto: Por que o "pequeno"? Alguns acreditam que somente um "grande poder" pode manter o "mal" sobre controle, não é o que descobri. São as pequenas coisas, as tarefas diárias de pessoas comuns que mantêm o "mal" afastado, simples ações de bondade e amor...

Amigo(a) leitor(a), nós somos os autores de nossa vida, a caneta é nossa. "Escreve-se sempre com as mãos nuas, mas a nudez e a transparência da página é que permitem a penetração no obscuro, a revelação do invisível." (Ramos Rosa)

Emanuel Filartiga é promotor de Justiça em Mato Grosso
Por: Emanuel Filartiga
24/06/2020
Cuiabá há 500 milhões de anos atrás
O nosso planeta possui 4,6 bilhões de anos, mesma idade que a nossa estrela e que os demais planetas do sistema solar. As rochas que encontramos na superfície do nosso planeta são formados em diferentes momentos e guardam nelas o registro dos eventos que ocorreram na Terra ao logo de toda sua história. Os geólogos através das informações que existem nas rochas, interpretam como eram as condições ambientais e os tipos de processos que ocorreram desde a formação da rocha até os dias de hoje. Mas e as rochas que encontramos em Cuiabá, o que contam para nós?
O leitor mais atento, ao andar pela cidade de Cuiabá, deve ter reparado rochas em forma de placas, formando dobras, com ângulos que varia de próximo a horizontal até próximo a vertical, também deve ter visto rochas arenosas e locais onde existe um material esbranquiçado no meio das outras rochas. A primeira rocha citada é o filito, a segunda é o metarenito e o material esbranquiçado, são os veios de quartzo. Estas rochas pertencem a uma unidade geológica chamada Grupo Cuiabá.

Esta unidade começou a se formar após a fragmentação do supercontinente Rodinia, entre 900 milhões e 1 bilhão de anos atrás, neste tempo estas rochas estavam no litoral de um continente que hoje conhecemos como Cráton Amazônico, em uma margem passiva, ou seja, sem subducção igual ao do litoral brasileiro. Após milhões de anos, este oceano começou a se fechar e a margem passou a ser uma margem ativa, ou seja, com subducção da placa oceânica que tinha se formado. Um outro fragmento continental começou a se aproximar, fechando esse oceano, esse fragmento é chamado de Cráton Paranapanema. Por fim, ambos os continentes concluíram o ciclo de fechamento do oceano há aproximadamente 600 milhões de anos, formando uma cadeia de montanhas igual ao Himalaia. Sim, aqui nesta região já existiu uma imensa cordilheira.

As rochas do grupo Cuiabá guardam o registro de um ciclo completo de abertura e fechamento de um oceano. Para fazermos uma comparação, o Atlântico hoje está se abrindo, e a cada ano a África e América do Sul se afastam alguns centímetros, enquanto o Pacífico está se fechando, ou seja, daqui a algumas dezenas ou centenas de milhões de anos a América do Sul provavelmente irá formar um só continente com a Ásia.
Não encontramos fósseis nestas rochas, pois a deposição delas ocorreu antes da explosão cambriana, episódio de grande diversificação das formas de vida, que ocorreu há 542 milhões de anos.  

Dentro desta imensa cadeia de montanhas, em uma câmara magmática, se formou o Granito de São Vicente, há aproximadamente 500 milhões de anos. O granito é uma rocha intrusiva que se forma devido ao resfriamento lento de um magma rico em sílica e oxigênio.

Hoje encontramos essas rochas expostas, pois os processos erosivos atuaram durante milhões de anos, removendo centenas a milhares de metros de rocha. Toda vez que olharmos para o chão podemos ver um pedaço da história do nosso planeta. Em outros locais, como em Chapada dos Guimarães, existem rochas que contam outros momentos e eventos que ocorreram na Terra, juntando todos esses fragmentos conseguimos desvendar o passado.

Caiubi Kuhn
Professor da Faculdade de Engenharia – UFMT Campus Várzea Grande
caiubigeologia@hotmail.com
Por: Caiubi Kuhn
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